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Liberdade ou libertação?

Impacto das Redes Sociais na Sociedade

O conceito de revolução é relativamente recente, quando comparado com a guerra que é tão antiga quanto a humanidade e que, não obstante incorporar a falência total da política – recuperando o aforismo de Aristóteles: o homem é um ser político porque é dotado de fala –, tem na paz o seu fundamento, aparentemente, inexaurível.

 

Com a Revolução Francesa emergiram, pela primeira vez na história da humanidade, determinados valores e foram conquistados direitos que viriam a ser fundamentais para a democracia como a conhecemos hoje no Ocidente. As preocupações com a questão social, apenas surgiram associadas à ideia de revolução neste período da Idade Moderna. Nos anos que a precederam, a base da pirâmide hierárquica encarava a pobreza como um factor intrínseco à sua condição. A indigência estava atribuída congenitamente aos estratos sociais mais baixos e a maioria da população estava destinada a um trabalho de “Sol-a-Sol” mal remunerado (muito próximo da escravatura), em oposição a uma ínfima minoria que pela conjuntura, posição social, oportunismo, força bruta ou estratagemas fraudulentos, se tinha conseguido libertar das vicissitudes da pobreza. O Mundo Livre da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, ambicionava a sublevação dos sectores oprimidos que estavam maniatados nas hierarquias sociais. Um ideal que num contexto alargado ainda falta cumprir!

 

Apesar do pressuposto de cada revolução – palavra resgatada à astronomia, que, paradoxalmente, significa repetição, o movimento cíclico dos corpos celestes isento de toda e qualquer influência humana – implicar a conquista da liberdade conspurcada por qualquer espécie de tirania, a fronteira entre esta e a guerra é muito ténue. Porém, existem pelo menos dois denominadores comuns: a violência e a sobrevivência a todas as justificações ideológicas. E é, precisamente, a violência legitimada que actualmente preenche os noticiários televisivos, que gera as parangonas mais apetecíveis das bancas das papelarias, relegando invariavelmente para segundo plano alguns aspectos latentes dos acontecimentos recentes no mundo árabe. Será que estamos perante verdadeiras revoluções, indissociáveis da urgência de uma mudança no sentido de um novo começo, em que serão constituídas novas formas de governos seculares (independentes dos grilhões da religião) e novos corpos políticos dispostos a servir a liberdade, em detrimento da opressão vigente? Ou estaremos nós perante revoltas e golpes de estado localizados cujo objectivo é libertar sectores específicos, em muitos casos obscuros, daquelas sociedades? Ainda é cedo para tirarmos ilações concretas, porque, por exemplo, nas reformas exigidas pelos líderes dos revoltosos, os discursos raramente aludem à igualdade de géneros tal como se denota a ausência de outros aspectos essenciais para que possamos falar verdadeiramente de liberdade. Para percebermos quão ambíguos estes acontecimentos podem ser, basta retrocedermos algumas décadas na História, nomeadamente até à Revolução Iraniana de 1979 que transformou uma república autocrática pro-ocidente numa república islâmica radical liderada pelo Ayatollah Khomeini – uma entidade suprema a quem a constituição pós-revolucionária atribuiu poderes absolutos e vitalícios, tanto nos assuntos políticos como nos aspectos religiosos do Irão. Neste sentido, libertação não é propriamente sinónimo de liberdade, assim como a restauração não é necessariamente o mesmo que revolução.

 

Todavia, o actual efeito dominó não se revela apenas nas sociedades mais fechadas, maioritariamente absorvidas pelo fundamentalismo religioso. Assistimos diariamente a manifestações de descontentamento em todos os recantos do planeta, galvanizadas por uma crise generalizada que tem posto a descoberto algumas desigualdades sociais que estavam encapotadas nos mecanismos dos estados, mas que também tem ampliado o fosso entre os que, aparentemente, se situam um patamar acima dos comuns mortais e os que nada têm.

 

 



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