Com as suas origens a remontarem ao século XIX, a Nokia é uma empresa que se tem reinventado, por diversas vezes, ao longo dos anos. Galochas, máscaras de gás, pneus de bicicletas, geradores e até equipamento para centrais nucleares, a Nokia é uma empresa que parece não conhecer fronteiras e que se aventura nos mais diversos mercados.
Por: Carlos Martins
Mesmo tendo passado por momentos complicados, a prova da sua tenacidade é que, quase 150 anos depois da sua criação, continua a ser um nome conhecido mundialmente e um verdadeiro colosso na área das telecomunicações.
Poderá surpreender muitos dos atuais clientes com telemóveis Nokia saber que as origens desta empresa não poderiam estar mais distantes da área em que agora operam. Mas, sabendo-se que a sua origem remonta a 1865, não só se percebe que a eletrónica e o conceito de um telemóvel móvel seriam ainda algo apenas possível no reino da ficção científica, como também a própria eletricidade estava ainda a anos de começar a mudar o mundo. Nessa altura, a Nokia era uma empresa que fazia – pasme-se – papel. De certa forma, poderia dizer-se que estava também relacionado com a forma de “telecomunicação” disponível na altura: com as cartas e postais.
Mas, com a evolução tecnológica, a Nokia rapidamente percebeu que a eletricidade teria um papel importante no futuro e, no início do século XX, a marca entrava no mercado da produção de eletricidade. Sobrevivendo às dificuldades de duas guerras mundiais nas décadas seguintes, a Nokia chegou aos anos 60, altura em que novamente se dedicou a uma área com o potencial para mudar o mundo: a eletrónica. Por esta altura a Nokia era uma empresa cujas áreas de influência se espalhavam por áreas como a dos produtos em borracha (pneus, galochas, etc.), plásticos, televisões, computadores, robótica e muitas outras.
Os telemóveis
Recordar como era o mundo antes da democratização dos telemóveis obriga-nos a regressar a uma pré-história das telecomunicações, onde telefonar para uma pessoa implicava ter que esperar que ela estivesse em casa e, o mais próximo que tínhamos de “comunicações móveis”, era dirigirmo-nos à cabine telefónica mais próxima – velhas relíquias que hoje em dia se tornam em autênticos fósseis que nos relembram desse passado distante.
Foi na sequência de mais um período conturbado na história da empresa no final da década de 80 – que culminou com o suicídio do seu CEO na altura Kari Kairamo (que se pensa ter sido devido a um esgotamento) – que a Nokia finalmente começou a dar os primeiros passos no percurso que a colocou no caminho que ainda hoje percorre: a dos telemóveis. A ligação da Nokia às telecomunicações era algo que já vinha de trás, tendo desenvolvido sistemas de comunicação para as forças militares finlandesas e até um sistema de telefones móveis para automóveis durante a década de 70 na Finlândia. Mas foi apenas nos anos 80 que a tecnologia evoluiu ao ponto de permitir a criação da primeira rede celular e dos primeiros telemóveis. Inicialmente apenas “transportáveis”, com modelos que pesavam quase 10 quilos (!), em 1987 a Nokia lança finalmente um telemóvel compacto: o Mobira Cityman, com os seus reduzidos 800 gramas. Um equipamento que apesar do seu preço proibitivo, de quase 5000 euros, se tornou num enorme sucesso.
Tentar reduzir a Nokia a um simples fabricante de telemóveis seria injusto. A Nokia teve um papel fundamental no desenvolvimento do sistema GSM que ainda hoje utilizamos e que é utilizado em inúmeros países por todo o mundo. Um sistema que não só permite a comunicação de voz e dados num mesmo país, como permite também que um utilizador possa deslocar-se a outros países e continuar a fazer e receber chamadas como se estivesse “em casa”, graças ao roaming. E claro, não podemos esquecer as SMS, um serviço que apesar de ter sido criado apenas para aproveitar os tempos livres, mais tarde viria a tornar-se num dos serviços mais utilizados por milhões de pessoas em todo o mundo.
A década de ouro
Na década de 90 assistimos a uma corrida sem precedentes na área das telecomunicações móveis, com diversos fabricantes a esforçarem-se por conseguirem cativar o público com telemóveis cada vez mais pequenos, leves e com mais autonomia e funcionalidades.
Dos pequenos e compactos telemóveis como o 2110, que rapidamente se tornavam em sucessos de vendas, a modelos mais icónicos como o 8110 com a sua tampa deslizante automática (e que encantou meio mundo ao aparecer no filme Matrix), e também os profissionais modelos Communicator que colocavam a potência de um computador pessoal no bolso de qualquer pessoa – desde que pudesse pagar o seu preço, é certo. Mas também os preços eram alvo de enorme revolução, aproximando-se cada vez mais de patamares acessíveis a toda a população e fazendo com que os telemóveis – anteriormente apenas ao alcance dos endinheirados e destinados a uso profissional – começassem finalmente a ficar ao alcance de todos, chegando ao ponto de começarem a substituir os telefones fixos em muitos lares, sendo quase garantido que em todos eles existia pelo menos um equipamento da Nokia.a
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